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Reflexões sobre temas da cultura digital


data_labe – Geração Cidadã de Dados

Por Bia Martins

Os dados sobre uma cidade são instrumentos estratégicos para o desenvolvimento de políticas sociais que atendam às demandas de sua população. O problema é que esses dados são pouco transparentes – mesmo que estejam disponíveis, sua leitura não é fácil para não especialistas – e, além disso, muitas vezes deixam de fora pontos cruciais especialmente para os moradores das periferias.

Existe ainda um outro ponto: os dados produzem narrativas, criam um imaginário sobre a cidade e as pessoas que vivem nela. Por isso é importante disputar o acesso e a produção de dados no Brasil como uma missão política, estética e cidadã. Esse é o mote do data_labe, um laboratório formado por jovens oriundos de periferias, baseado no Complexo da Maré, na cidade do Rio de Janeiro.

O laboratório começou em 2016, junto ao Observatório de Favelas e em parceria com a Escola de Dados. De lá pra cá, fez muita coisa, formou muita gente, e aos poucos concluiu que era importante buscar uma atuação mais autônoma com base na autogestão. Suas ações são estruturadas em três eixos: produção de conteúdo; formação; e monitoramento e geração cidadã de dados.

O conceito de Geração Cidadã de Dados, como explica Fábio Silva aqui, deve seguir alguns critérios: ser feita coletivamente e de forma consciente, a partir da perspectiva da participação política e ter formato aberto. Sua produção tem um propósito ativista objetivo, qual seja, o de empoderar aquela população com dados que subsidiem suas reivindicações junto ao poder público.

Um dos projetos que está sendo desenvolvido desde 2017 pelo data_labe, com apoio do Fundo Socioambiental Casa e parceria com a Casa Fluminense e Redes da Maré, é o #cocôzap. A proposta é que os próprios moradores enviem, através do WhatsApp, fotos, vídeos e narrativas sobre coleta de lixo e esgotamento sanitário em favelas e periferias do Rio de Janeiro Metropolitano a fim de construir um mapeamento colaborativo dos problemas de saneamento básico na região.

O projeto é um processo contínuo e experimental. Já foi realizado um primeiro piloto durante oito semanas, entre outubro e novembro de 2018. Os registros podem ser conferidos nesse link aqui e também é possível conhecer os debates metodológicos e os relatos da primeira  experiência no medium. Além de produzir dados atuais sobre o saneamento básico em favelas, algo que o poder público não provê, o projeto representa um importante incentivo ao engajamento dos moradores no diagnóstico de seus problemas e, consequentemente, na mobilização por sua solução.

Mas voltando à importância das narrativas na construção do imaginário, outro projeto do data_lab é o Mapa da Comunicação Comunitária, uma plataforma de georeferenciamento que reúne veículos de comunicação comunitária do Brasil. Fazem parte do mapeamento, que é colaborativo, iniciativas baseadas em princípios públicos, que propiciem participação ativa da população, sejam propriedade coletiva e não tenham fins lucrativos.

Por trás do projeto está a ideia de que o empoderamento da juventude de periferia do País passa, necessariamente, pelo acesso, produção e difusão de informações. A intenção é que, ao tornar pública a base de dados sobre essas iniciativas de comunicação comunitária brasileira, se incentive a criação de uma rede de colaboração entre esses veículos e , consequentemente, o fortalecimento desse setor.

Na mesma linha vai a Narra, uma agência-escola de narrativas de periferias, como um projeto de formação em jornalismo para jovens de favelas do Rio de Janeiro, em parceria com o Observatório de Favelas. E ainda uma outra realização do laboratório que não podemos deixar de mencionar é a CriptoFunk, uma cyptoparty para discutir privacidade, segurança digital e liberdade de expressão, que teve sua primeira edição em novembro de 2018 na favela Nova Holanda.

Além desses projetos mais visíveis, existe uma produção do data_labe que talvez não seja tal fácil de enxergar à primeira vista: é a formação de dezenas de jovens da periferia que passam a conhecer a teoria e a técnica para trabalhar com dados e, dessa forma, desenvolver por conta própria ou em novas parcerias um sem número de projetos e pesquisas que pouco a pouco, certamente, poderão contribuir para mudar a realidade de suas comunidades. Este, sem dúvida, é o mais louvável e potente desdobramento da atuação do laboratório.

Para saber mais sobre esses e outros projetos do data_labe, acesse

http://datalabe.org/



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