Em Rede

Reflexões sobre temas da cultura digital


Cooperativas de entregadores

Enviado por editor em seg, 08/03/2020 – 19:41

Por Bia Martins

No mês passado, acompanhamos o Breque dos Apps, com dois dias de paralisação nacional dos entregadores de aplicativo (1º e 25 de julho) que, se não chegaram a parar o serviço no país, ficaram longe de ser fiasco. Isto porque, além de causarem atrasos nas entregas, deram  visibilidade para a extrema exploração a que estão submetidos esses trabalhadores, ajudando a desmistificar de vez a imagem da tal Economia do Compartilhamento como uma alternativa de trabalho autônomo. Aliás, já há um bom tempo escrevemos aqui sobre isso, alertando para o canto de sereia dessas plataformas.

A boa notícia, além claro do surgimento do movimento dos Entregadores Antifascistas, é que também ganharam visibilidade diversas iniciativas de entregadores que estão se autoorganizando para oferecer o serviço diretamente para os consumidores, sem intermediários, podendo assim garantir melhores condições de trabalho e remuneração mais digna.

Vale ler a entrevista com Paulo Lima, o Galo, dos Entregadores Antifascitas.

A inspiração vem de fora, onde há diversos exemplos. Na Espanha, destacam-se  a cooperativa Mensakas, em Barcelona, e La Pájara, em Madri, criadas após movimento grevista contra o aplicativo Deliveroo. Ambas são comprometidas com o direito ao trabalho digno e seguro e a promoção de uma economia social solidária.

Já existe até uma federação de cooperativas de entregadores de bicicleta, a CoopCycle, que reúne 30 cooperativas do tipo. Fundada em setembro de 2017, a organização se propõe a criar um modelo econômico anticapitalista, baseado no Comum, com uma política de lobbying e coordenação global. Eles desenvolveram um software, no modelo do cooperativismo de plataforma, com todos os recursos para que entregadores trabalhem de forma verdadeiramente autônoma, e que pode ser baixado livremente.

Uma nota importante, que vai ao encontro do que temos defendido aqui no Em Rede: o software utiliza uma nova licença, a Coopyleft, inspirada na Copyfarleft, que permite seu uso somente por empresas nas quais os trabalhares estejam vinculado no formato de cooperativa e que estejam alinhadas com a definição de economia social da União Europeia.

O vídeo documentário que abre este post, Reclaiming Work, mostra as mobilizações na Espanha e na França para criar uma alternativa cooperativa e autônoma ao modelo de exploração desenfreada dos aplicativos das grandes plataformas.

E, finalmente, vamos ao que interessa. Aqui no Brasil também começam a surgir iniciativas nessa linha. Em Porto Alegre existe a Pedal Express, ainda pequena, com sete entregadores. Como ainda não têm um aplicativo, atendem por whatsapp.

No Rio surgiu há pouco a Despatronados, com slogan “seu delivery carioca”. Com dez entregadores, atendem boa parte da cidade, e trabalham com agendamento prévio que deve ser realizado no dia anterior por telefone, pois o aplicativo ainda está em desenvolvimento.

Em São Paulo, tem a Senoritas Courier, coletivo formado apenas por mulheres ou pessoas LGBT, que atende um nicho mais específico, voltado a marcas veganas e economias feminista e negra.

E, por último, os Entregadores Antifascitas também estão pensando em criar uma cooperativa de entrega. Você pode ajudar o movimento contribuindo com o financiamento contínuo no Apoia-se.  

São boas notícias, mas certamente a batalha ainda está longe de ser ganha pois não há comparação na dimensão do alcance das plataformas como UberEats, iFood e Rappi com o dessas iniciativas cooperativas. Mas elas são, sem dúvida, um passo importante na direção da criação de modelo econômico mais justo, que garanta remuneração digna aos trabalhadores.

É bom lembrar que cabe a cada um de nós, que acreditamos numa economia mais justa e solidária, valorizar essas alternativas e sempre optar por serviços de entrega que não representem a tremenda precarização do trabalho, como observamos agora no caso dos aplicativos de entrega que viram seus lucros crescerem estratosfericamente na quarentena, mas não ousaram distribuí-los com quem está na linha de frente do serviço.



Deixe uma resposta

#CulturaLS18 Algoritmo Anti-Vigilantismo Arduíno Autonomia Tecnológica Autoria Baia Hacker Baixa Cultura BitCoin Capitalismo de Plataforma Ciência Aberta Ciência Cidadã Comum conhecimento livre Convivialismo Cooperativismo de Plataforma Copyright Covid-19 Creative Commons Cultura Hacker Cultura Livre Desinformação Direito Autoral DIY Economia P2P Educação Aberta Entregadores Hacker Hackerspaces Hardware Livre Inteligência Artificial Internet Livre Livros para baixar Marco Civil da Internet P2P Plágio Produção entre Pares Redes comunitárias Redes livres Remix Software Livre Tecnologias Livres Uber Universidade Vigilância

Descubra mais sobre Em Rede

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading